Mensagens atribuídas pela PF a Vorcaro perguntam sobre busca, bloqueio e "estar fora" nos dias que antecederam a prisão
Relatório aponta perguntas do banqueiro a um contato salvo como o do ministro sobre o alcance das medidas e a chance de contê-las; as respostas não foram integralmente recuperadas, e a leitura de conversa unilateral tem limite probatório
Divulgação/Banco MasterResumo
As reportagens do Estadão e do Poder360 detalham, mensagem a mensagem, o fio recuperado do celular de Daniel Vorcaro em que o banqueiro trata do avanço das investigações com um contato salvo como o do ministro Alexandre de Moraes. Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro pede que se "reforce com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem" e chega a enviar nomes de delegados e procuradores, apagando as mensagens em seguida. Em 4 de novembro, pergunta se "médio a grave seria busca ou quebra de sigilo" e se haveria "pedido deferido" que desse "pra bloquear". Em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, questiona: "acha que segunda já tenho que estar fora?". No dia da prisão, 17 de novembro, às 17h26, pergunta se havia "alguma novidade" e se o interlocutor "conseguiu ter notícia ou bloquear". A PF associa "Andrei e Paulo" ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral, Paulo Gonet.
Contexto
O material saiu do celular apreendido quando Vorcaro foi preso, em novembro de 2025, ao tentar deixar o país no auge da Operação Compliance Zero, que levou o Banco Central a liquidar o Master. O relatório de análise foi enviado ao ministro André Mendonça, relator do caso, e teve o sigilo levantado nesta segunda-feira. Um dado metodológico pesa sobre tudo: o fio é assimétrico. As respostas do outro lado não foram integralmente recuperadas, Vorcaro usava mensagens de visualização única e notas fotografadas, e o contato está gravado como "Alexandre de Moraes BRASILIA", rótulo de agenda que não identifica, por si, quem digitava. Em março, no episódio da CPMI do INSS, uma perícia já havia concluído que mensagens então atribuídas ao ministro não constavam dos arquivos apreendidos.
Argumentos
- Para a PF, a sequência sugere que Vorcaro recebia informação sobre medidas em preparação e buscava contê-las ou antecipar-se a elas, inclusive sondando a saída do país.
- Para a defesa de Moraes, não há a confirmação do interlocutor nem das respostas, e o precedente de março mostra que material atribuído ao ministro já se revelou mal endereçado uma vez.
- Ponto técnico que vale para os dois lados: pergunta registrada em um aparelho, sem a resposta correspondente e sem perícia de autenticidade, tem valor probatório limitado enquanto não corroborada.
Fundamento
A prova extraída de aparelho apreendido segue a cadeia de custódia dos artigos 158-A a 158-F do CPP, e defeito nessa cadeia contamina o que incrimina e o que inocenta. Registro unilateral, sem a contraparte, não faz prova por si: a jurisprudência exige corroboração para que uma mensagem sustente medida contra terceiro, e contato salvo em agenda não é identificação de autoria. Caso se confirmasse repasse de informação sigilosa sobre diligências, a discussão migraria para tipos como violação de sigilo funcional e obstrução, mas isso é hipótese de investigação, não conclusão do relatório. A sondagem sobre "estar fora" dialoga com os fundamentos da prisão preventiva do artigo 312 do CPP, entre eles o risco de fuga.
Consequência prática
Para a advocacia criminal, o episódio é um caso-escola sobre o peso de conversa recuperada de celular alheio: as defesas do próprio caso Master ganham motivo para pedir a íntegra do relatório e periciar a extração, porque qualquer fragilidade na origem vale também para os elementos que incriminam seus clientes. Advogados com processos sob relatoria de Moraes passam a ter mais uma peça para eventual arguição de suspeição, a ser usada com a cautela que o histórico recente recomenda.
Por que importa
O que está em jogo é o padrão de prova que a Justiça vai aceitar a partir de mensagens unilaterais extraídas de um telefone. A régua que o STF fixar para avaliar este fio valerá, depois, para todo réu cujo processo dependa de conversa achada no celular de outra pessoa.
Próximos passos
- A PGR foi instada a apresentar esclarecimentos e tem prazo para se manifestar.
- André Mendonça quer levar os elementos ao plenário do STF em sessão presencial.
- A defesa pode requerer perícia independente sobre a autenticidade das mensagens e a cadeia de custódia da extração.
- Manifestação de Moraes sobre o teor das conversas é esperada nos próximos dias.